Aggretsuko, KyoAni e pressões difíceis de suportar

Domingo, 14 de julho, eu que não gosto de maratonar nada, assisti as duas temporadas de Aggretsuko. E isso porque eu estou longe de se...



Domingo, 14 de julho, eu que não gosto de maratonar nada, assisti as duas temporadas de Aggretsuko. E isso porque eu estou longe de ser uma grande entusiasta de animes.

Aggretsuko é um anime que fácil fácil, conta a vida (ou períodos da vida) adulta de qualquer um de nós. O plot central é a rotina de Retsuko, uma adorável panda vermelha que, do alto dos seus 25 anos, ainda mora de aluguel, ainda não se casou, ainda não construiu algo para si, ainda se submete a um emprego com frequentes situações abusivas, onde ela não se sente realizada. Pressionada para ser sempre eficiente, cordial e submissa, a pequena e encantadora Retsuko encontra a si mesmo, encontra a sua paz e o seu equilíbrio num pequeno quartinho de karaokê onde se entrega ao death metal. É no som violento e no canto gutural que ela encontra forças para lidar com as mais diversas situações sem explodir. Ao longo dos episódios nos identificamos com muitas das angústias e inquietações de Retsuko e torcemos para que ela consiga encontrar o caminho do bem estar e da realização pessoal – mesmo quando ela toma algum rumo que a gente possa encarar como uma grande roubada.





Aggretsuko, repleta de animais parece à primeira vista, infantil e fofinho. Mas basta alguns minutos para percebermos o quão adulto é esse anime e o quanto ele levanta questões absolutamente atuais em sociedades que se encontram em transição, onde o tradicional se confronta com as necessidades do mundo moderno. É um anime que faz com que a gente pare para refletir sobre as imposições da vida adulta, sobre como lidamos com frustrações, como vencemos ou nos entregamos à pressão e sobre como amadurecemos, mesmo contra a vontade.


No dia 18 de julho, uma quinta feira, o noticiário nos conta sobre um terrível incêndio que destruiu um estúdio de animação no Japão, o Kyoto Animation, ou KyoAni. Um homem de 41 anos, identificado pela polícia como Shinji Aoba ateou fogo ao prédio do estúdio, provocado um incêndio que não só destruiu equipamentos e documentos, mas também matou até o momento em que escrevo, 34 pessoas. Aoba se feriu gravemente durante o ato incendiário, e como está internado sob efeito de anestésicos, ainda não foi possível para a polícia interrogá-lo. As testemunhas afirmam que ele parecia extremamente raivoso e gritava sobre ter sido plagiado pelo estúdio.


KyoAni é um estúdio tradicional de animes do Japão, tendo participado de animes de grande sucesso como Akira (1988). Como empresa autoral, sua especialidade eram as light novels, como Violet Evergarden com temáticas mais femininas, com protagonismo feminino, tanto nas animações quanto em seus quadros de funcionários. Fundado em 1981, não era dos maiores estúdios do Japão, mas era respeitado e reconhecido. Um dos pontos mais ressaltados pela mídia durante a cobertura do incêndio, é o fato de que o estúdio Kyoto tinha preferência por contratar mulheres e que, indo na contramão de muitos outros estúdios, preferia ter seus funcionários contratados e não prestadores de serviço free-lancer. Numa sociedade ainda patriarcal e machista – que é bem retratado em Aggretsuko, quando tratam o interesse feminino no trabalho apenas como “uma forma de arranjar marido - esse é um ponto relevante e com certeza muitas meninas sonhavam em trabalhar lá, sonhavam em trabalhar num ambiente onde pudessem se sentir seguras, valorizadas.




Shinji Aoba tinha uma passagem por roubo, histórico de agressividade e tratamento psíquico. Vivia em um abrigo para ex detentos e planejou o ataque. Comprou galões e gasolina, preparou tudo num terreno próximo ao estúdio e desejou aos berros, a morte de todos as mais de 70 pessoas que se encontravam no prédio naquela manhã. Não há nada até o momento, que comprove uma ligação entre ele e o estúdio, sinais do suposto plágio. Não há nada que justifique o massacre que ele provocou.


Shinji Aoba não suportou a pressão. Talvez porque não tivesse estrutura psíquica, porque não tivesse uma rede de amigos que lhe dessem sustentação, porque não tivesse uma válvula de escape para lidar com as frustrações. Talvez porque o sofrimento psíquico fosse mais forte que qualquer uma dessas coisas. Talvez porque simplesmente fosse um homem mau que se sentia no direito de ver suas frustrações serem superiores à vida e a obra de outras pessoas.

Em uma semana, o anime da Sanrio sobre uma panda vermelha contadora em uma grande empresa e um incêndio cruel, que chocou não só o Japão, mas o mundo, me contaram sobre a frustração na idade adulta, nas cobranças que fazemos e sofremos no dia a dia, sobre como precisamos entender que está tudo bem se você não tem ou é como fulano ou beltrano. Em uma semana os animes estiveram presentes na dor e na crueza do mundo real.

Mais do que o isolamento e anonimato do karaokê, Retsuko tinha amigos que a apoiavam e a protegiam. E é muito mais fácil não sucumbir à pressão, quando você tem alguém com quem contar. Não sofra sozinho.

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