Depredação na Igreja da Matriz em Sacramento - desrespeito e impunidade

Capa do Jornal da Manhã Ontem minha timeline foi brindada com a triste notícia da destruição das imagens sacras da Igreja Matriz de S...

Capa do Jornal da Manhã

Ontem minha timeline foi brindada com a triste notícia da destruição das imagens sacras da Igreja Matriz de Sacramento. Não sou católica (já fui num passado muito distante) e sinceramente não gosto de entrar em igrejas. Minha orientação religiosa é baseada no espiritismo compilado por Alan Kardec, mas isso nunca me impediu de ter meu exemplar do Al Corão, de cantar os mantras e bhajans hindus de que tanto gosto, nem tão pouco me impediu de tempos atrás, ter tido um affair com um judeu ou de pisar descalça o chão de terra batida dos terreiros de Umbanda.

A religião tem por objetivo aproximar o homem de Deus, seja lá a forma como esse homem designa e entende esse Deus. E as religiões, quando despidas de seus dogmas se revelam semelhantes, ao orientar que as pessoas respeitem seu semelhante. Na falta de palavras mais exatas, podemos mesmo dizer que as religiões colocam como forma de melhor se comunicar com Deus, o amor ao próximo.

Imagens destruídas na igreja da Matriz em  Sacramento - foto de Carlos Rodrigues
Imagens destruídas na igreja da Matriz em Sacramento - foto de Carlos Rodrigues

Imagens destruídas na igreja da Matriz em  Sacramento - foto de Carlos Rodrigues
Imagens destruídas na igreja da Matriz em
 Sacramento - foto de Carlos Rodrigues

Ao receber a denúncia de que vândalos estavam no interior da igreja, destruindo as imagens, a polícia se deslocou até o local e encontrou lá um jovem de 20 anos, que se dizendo protestante alegava não gostar do culto a imagens de barro. Na delegacia, segundo informações do Jornal da Manhã foi observado que o autor aparenta ter distúbios mentais. O autor afirmou que havia outra pessoa destruindo as imagens, mas este fugiu. O jovem preso já foi liberado pela polícia.

Recentemente a justiça acatou à uma ação pública movida pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC/RJ) que solicitava que fossem retirados do Youtube, 15 vídeos que disseminavam o preconceito, intolerância e discriminação contra religiões de matriz africana. Os vídeos de cunho religioso, investem na Umbanda e no Candomblé, a personalização do mal e induz aos seguidores das religiões ditas cristãs que destruam terreiros e símbolos das religiões afros.

 Na liminar, o desembargador federal Reis Friede alega que “a liberdade de expressão não pode constituir (e, de fato, não constitui) autorização irrestrita para ofender, injuriar, denegrir, difamar e/ou caluniar outrem”. “Vale dizer, liberdade de expressão não pode se traduzir em desrespeito às diferentes manifestações dessa mesma liberdade, sendo correto dizer que a liberdade de expressão encontra limites no próprio exercício de outros direitos fundamentais”, acrescentou.(fonte: Umbanda, eu curto!)

Segundo estudo da antropóloga e pesquisadora Sônia Giacomini, os ataques à terreiros e praticantes de religiões como a Umbanda e o Candomblé, se dividem em 32% ataques feitos por evangélicos, 27% ataques feitos por vizinhos e 7% ataques feitos por vizinhos evangélicos. E no entanto esses casos tem pouco ou quase nenhum destaque na mídia. Talvez, não fosse a forte repercussão negativa nas redes sociais, da decisão do juiz federal Eugênio Rosa de Araujo (que se negou em primeira decisão a retirar a os vídeos do youtube, alegando que Umbanda e Candomblé não são religiões) talvez, nada tivesse sido feito.

No entanto agora essa intolerância, essa guerra dissimulada chega à uma instituição secular. E as decisões são as mesmas, ou seja, não dá em nada. E assim as pessoas se sentem mais incentivadas a desrespeitar o outro. Não é só uma questão religiosa. É um problema social, onde cada vez mais as pessoas se sentem cheias de direitos, mas completamente despidas de deveres. E quando nem a religião, que deveria ser um abrigo e um acalanto ao espirito cansado do homem, nem a religião induz o homem ao respeito ao próximo, ao contrário, instigando seus seguidores, a impor sua doutrina, ainda que à força, eu me sinto cada vez mais preocupada.

Quase consigo ouvir meus amigos ateus dizendo que a religião é retrógrada, um desserviço, uma forma de alienação. Infelizmente o modo com que se tem tratado a crença, me faz dar uma certa razão a eles. O problema não é a religião, pois como eu disse no início, ela é uma forma de aproximar as pessoas de sua divindade. O problema está no uso que se faz dessa religião e da crença de terceiros, para se conquistar poder e vantagens pessoais. 

A religião, ainda é necessária, pois nem todas as pessoas tem os mesmos níveis de entendimento do seu eu e do próximo. Minha mãe costuma dizer que eu sou a filha "que não acredita em nada" por que eu não vou ao centro, não vou à igreja... Ela não entende que eu não sinto necessidade disso, visto que se Deus é o princípio inteligente de todas as coisas, ele está em todos os lugares, logo não preciso ir a um lugar específico encontrá-lo.

Na noite de 26 de junho deste ano, o terreiro de mãe Conceição de Lissá no Rio de Janeiro foi incendiado. Foi o sexto ataque em seis anos

Precisamos rever nossos conceitos. Essa conversa de "respeito a quem se dá ao respeito" tem que ter as suas ressalvas. É preciso respeitar as pessoas porque elas tem os mesmos direitos que eu ou você. Independente de religião, cor, raça, sexualidade, situação financeira ou social. Esse garoto protestante que destruiu um patrimônio histórico cultural, causando prejuízos ao município de Sacramento, precisa ser punido, para que ele e a sociedade entendam que não se pode colocar as próprias convicções acima dos direitos alheios. Mas quando vejo as pessoas desejando seu linchamento, sua morte, sua dor, seu suplício, eu fico sinceramente pensando se somos muito melhores do que esse garoto equivocado...

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