A história de uma gata - Mel

Neste primeiro semestre de 2014, tive entre outras disciplinas na faculdade, uma chamada Livro Reportagem. E escolhi como tema do...



Neste primeiro semestre de 2014, tive entre outras disciplinas na faculdade, uma chamada Livro Reportagem. E escolhi como tema do meu livro reportagem, minha colega de trabalho Ana Paula Prado e seu primeiro ano de batalha contra a Granulomatose de Wegener. Se quiser conhecer um pouco dessa história, visite o blog Eu e Wegener onde Paulinha fala sobre sua experiência.

E um dos capítulos do livro foi dedicado à nossa filha em comum, a Mel, uma linda gata que mostra que nem sempre ser um animal de raça, significa tranquilidade e amor. 

Mas que não fique dúvida em relação ao amor da Paulinha pela Mel. O texto abaixo é longo, mas é o capítulo sobre a Mel e não quis cortar nada. Quem tem paixão por gatos vai me entender

Mel é uma gata exuberante de pelo longo em tons de cinza e expressivos olhos amarelos. Só que nem toda essa beleza foi capaz de livrar a pequena de uma vida mais errante do que a de muito gato vira latas por aí. Paulinha conhecera a gata nas idas à manicure e sempre foi encantada pela felina. Só que a Mel, não era da manicure e sim de uma cliente, que viajava com muita frequência. E nessas viagens várias pessoas se revezavam nos cuidados com a gata. E Mel nem era propriamente da cliente, era da filha que se mudara de Uberaba e deixara a gata com a mãe, que por sua vez, deixava a gata com quem se dispusesse a ficar com ela por uns dias. Quando o assunto da doação da gata surgiu, Paulinha, que havia jurado nunca mais ter um gato, após a morte de Xandinho, aceitou sem pensar quando perguntaram se ela não gostaria de adotar Mel.

 Paulinha só se esqueceu de consultar o restante da família antes... Ao chegar em casa com a gata, Paulinha teve que lidar com a reação inesperada de seu Odésio. Ele não queria sob hipótese alguma a gata dentro de casa. Chegou a um gesto extremado: Paulinha eu não quero saber de gato aqui em casa!

-Mas pai...

-Não tem mais! Você escolhe, ou ela ou eu!

-Pai, 'tá' de noite já, pra onde eu vou levar essa gata?

-Não quero saber. Se ela não vai sair, saio eu!

Seu Odésio decididíssimo se ergueu do sofá, foi até o quarto, pegou algumas roupas, um cobertor, os documentos e a chave do carro e saiu bufando, pisando duro. Onde passou a noite, Paulinha nunca soube, mas o pai realmente parecia estar levando a sério a história de “ou ela ou eu”.

Mel e Paulinha
No dia seguinte preocupada com a reação do pai, Paulinha colocou Mel na caixa de transporte e levou para o trabalho. Nessa época ela trabalhava no Ateliê de Convites. Lá Mel ficava deitada no alto de um guarda roupas, para o desespero do shih tzu da dona da empresa, que queria a todo custo, alcançar a gata. E assim Mel alternou seus dias, entre o guarda roupas e a mesa de Paulinha. Até que um feriado prolongado obrigou Ana Paula a levar Mel para casa. Nesse dia seu Odésio não estava disposto a dormir na rua e assim como Ana Paula e dona Maria, se rendeu aos encantos da silenciosa gata de imensos olhos amarelos. Mel então passou a ser parte da família de Ana Paula com os mimos que ela poderia lhe oferecer; banho e tosa regulares, ração premium, vacinas e o direito a dormir na cama da dona, supra sumo da vida de qualquer animal de estimação. E o que até então lhe faltara, em seus 18 meses de vida; um amor incondicional.

Assim, imagino o quão difícil foi para Ana Paula me ligar naquele 01º de maio. Eu estava na casa de minha mãe, com Mariano, meu marido e me surpreendi ao ver o nome de Paulinha no visor do celular. Sabia que ela estava internada no hospital e isso somado ao meu pavor à telefonemas, me fez atender ao telefone sobressaltada. Paulinha ao ouvir meu alô começou a falar atropeladamente:

-Jessica, tudo bom? Escuta, eu tô te ligando porque preciso de um favor seu. O médico me proibiu de ter bichos Jéssica, disse que por causa da minha baixa imunidade eu não poderei mais ter bichos na minha casa. Então eu preciso dar os meus e eu não consigo pensar em outra pessoa pra ficar com a Mel que não seja você. Eu sei que com você ela vai estar bem...

Ela falava sem quase me dar espaço para esboçar reações. Minha primeira reação foi pedir a ela que ficasse calma. Que claro, eu ficaria com a gata até ela “ficar boa”; claro que ela se recuperaria! E que eu procuraria cuidar de Mel o mesmo carinho e cuidado com que ela cuidava. Eu falava essas coisas sentindo um aperto no peito. Imaginava a angústia da Paulinha, a dor de se separar de sua Mel, porque essa dor ainda me perturbava. Havia perdido três animais no último ano; o Bilisko, um mestiço de shih tzu que eu adotara e que me fora roubado; Thor, o primeiro bichinho que levara para minha casa própria ao me mudar com Mariano. Thor morrera envenenado por uma aranha. E Penny a minha segunda gata que desapareceu um dia depois de eu levar para casa, a Kira, minha cachorra vira lata, então com um mês de vida. Sentia a perda de cada um desses bichinhos e imaginava a sensação de perda, de impotência de minha amiga, ao mesmo tempo que me sentia lisonjeada por ter sido escolhida por ela.

-Olha, eu te ajudo com o dinheiro do banho, com a ração... Ela tem a caixa de transporte dela, a caixa de areia, o comedor, tudo direitinho, você pode pegar tudo lá com a minha mãe. - Continuou Ana Paula no telefone.

- Paulinha, não se preocupe com dinheiro. Pra tudo na vida dá-se um jeito. Eu passo na sua casa depois e pego ela com você, você não vai ficar internada muito tempo, não é?

-Não Jessica, eu prefiro nem ver ela. Porque eu vou sofrer demais em ver ela ir embora, não quero não. Passa lá essa semana e pega ela com a minha mãe. Pode deixar que eu aviso que você vai lá buscar a Mel.

Ana Paula me passou o endereço e eu mais uma vez tentei tranquiliza-la dizer que seria por pouco tempo, que logo ela estaria bem. Mas eu sabia, sentia que não seria assim. Desliguei o telefone segurando o choro, para logo em seguida, desabar em lágrimas, sentada no quintal da casa de minha mãe, sob a mangueira, enquanto tentava explicar ao Mariano o que estava acontecendo. Três dias depois, saí da Távola no bairro Mercês e cruzei a cidade até o Parque das Américas, bairro do outro lado da cidade, onde fica a delegacia da Cidade. A delegacia é um ponto de referência indispensável para se chegar até a casa da Paulinha e que serviu para guiar-me até lá.

Dona Ana Maria atendeu ao portão com o olhar curioso de quem não sabe quem são as pessoas à sua frente. Me identifiquei e logo ela me convidou para entrar. Atravessamos a garagem, a sala ampla e na cozinha ela começou a recolher as coisas da gata, enquanto falava.

-Olha, a ração dela é essa aqui... Esse é o bebedouro e a caixinha de areia, já deixei limpa.

Ela ajeitava as coisas dentro de uma sacola, enquanto eu olhava a belíssima gata deitada num canto da sala.

-Ah ela adora ficar atrás do sofá. A Mel é bem quietinha. Ela gosta de caçar passarinho, mas nem dá trabalho não.

Aquela situação era toda muito dolorosa. Eu sentia na voz da senhora Ana Maria, a tensão de quem tem a única filha internada em um quarto de hospital. As pausas entre uma frase e outra, uma resposta e outra às minhas perguntas, vinham cheias de uma vontade de acreditar nas próprias palavras.

Eu estava tão constrangida, tão incomodada com toda aquela situação, com a minha incapacidade de abraçar aquela mulher e dizer a ela que aquele inferno todo teria um fim logo, que apressadamente recolhi as coisas de Mel, entreguei a caixa de transporte ao Mariano e após algumas frases genéricas trocadas com dona Ana Maria e me despedi dela, subindo na moto, equilibrando a caixa de transporte numa das coxas, enquanto com a outra mão me segurava na cintura de Mariano. E assim trouxe Mel para minha casa.

Nos primeiros dias ela se escondia em cantos escuros. Quando ficava no quintal, passava horas deitada diante do portão, observando a rua pela fina fresta entre a chapa de metal do portão e o trilho por onde ele deslizava. Como que esperando ver as rodas do Fox de Paulinha parar à minha porta para buscá-la. Por três vezes ela fugiu e tive que correr atrás dela, até a encurralar no quintal de uma vizinha, que ainda não havia murado sua casa.


Coincidência ou não, foi depois que Paulinha entrou em coma pela primeira vez que Mel deixou de fugir. No dia em que soube que Ana Paula estava na UTI entre a vida e a morte, cheguei em casa, me abracei à Mel e chorei.

Talvez por toda a sua história de vida, Mel não é uma gata de querer colo. Mas as vezes eu acordo pela manhã e vejo seus grandes olhos amarelos velando meu sono, esperando meu despertar. Quando faço minhas refeições na sala, ela se equilibra no encosto do sofá ao lado do meu ombro e estende a patinha, pedindo um pouco do que eu estiver comendo. Hoje mesmo pela manhã, insistiu em ficar comigo, enroscada em meus pés, exigindo carinho com seu ronronar. 

 Do jeito dela, hoje ela me aceita.

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